Por cada dia que passa há 3,8 milhões de euros em empréstimos bancários que correm o risco de não ser pagos. No que diz respeito ao crédito à habitação, são mais de 1,31 mil milhões de euros que estão em risco de não pagamento.
De acordo com Boletim Estatístico de Abril, ontem revelado pelo Banco de Portugal, o crédito de cobrança duvidosa aumentou 113 milhões de euros de Janeiro para Fevereiro, totalizando 2,39 mil milhões de euros.
No crédito ao consumo o malparado totaliza 569 milhões (ver gráfico).
Pelo terceiro mês consecutivo, o crédito de cobrança duvidosa regista uma subida. De Dezembro a Fevereiro, o montante de empréstimos que correm o risco de não ser pagos subiu 183 milhões de euros.
O aumento das taxas de juro tem obrigado milhares de famílias a renegociarem os créditos bancários, numa tentativa de evitarem que a prestação mensal fique mais pesada. De Dezembro de 2007 a Abril de 2008 a taxa de juro Euribor a seis meses (o principal indexante dos créditos à habitação) passou de 4,40 para 4,81 por cento. A somar a esta evolução do principal indicador do crédito à habitação, as instituições bancárias estão a aumentar os spreads (acréscimo à taxa de juro feito pelos bancos de acordo com o risco dos clientes) como forma de defesa, face à crise financeira internacional.
A tendência de subida do malparado deverá acompanhar o crescimento dos juros. Ontem, o banco central alemão, Bundesbank, afirmou que o Banco Central Europeu (BCE) deve aumentar a taxa de juro de referência da Zona Euro caso se torne claro que a estabilidade dos preços está em risco.
As pressões inflacionistas aumentaram ‘consideravelmente nos últimos meses e a estabilidade dos preços deteriorou-se significativamente’, adiantou o banco alemão numa nota ontem divulgada pela Bloomberg.
Na última semana, vários responsáveis do BCE afirmaram que não há margem para descer os juros – quando a inflação está no nível mais elevado dos últimos 16 anos.
113 milhões por mês
Pelo terceiro mês consecutivo o crédito malparado subiu, atingindo os 2,39 mil milhões de euros.Os calotes subiram 10% face ao mesmo períodode 2007
Como defender-se da subida das taxas
Estender o prazo do empréstimo até 50 anos
A Caixa Geral de Depósitos oferece soluções para fazer face a surpresas. Pode-se alargar o tempo do empréstimo até 50 anos, reduzindo o valor pago mensalmente. O cliente pode ainda pagar um valor fixo da prestação, aumentando ou diminuindo o prazo do empréstimo conforme as taxas de juro.
Modalidade de taxas fixas no crédito
O crédito à habitação do BES oferece a modalidade de taxa fixa, na qual a taxa de juro é sempre a mesma, não estando sujeita às variações do mercado. Também há uma outra possibilidade, a de fazer um intervalo das prestações em momentos de maiores dificuldades financeiras.
Reduzir prestação até 50 % por 5 anos
Para além da prestação de igual valor ao longo do contrato, para o cliente se proteger das subidas das taxas de juro o Millennium BCP tem ainda a opção de reduzir até 50% o valor da prestação, por um período máximo de cinco anos. Durante esse tempo a prestação é independente das variações das taxas de juro.
Prestação mista que vai crescendo
O BPI oferece a modalidade de prestações mistas, em que a prestação começa por ser reduzida e vai crescendo durante os primeiros dez anos, permanecendo a partir dessa data constante até ao final do empréstimo. Deste modo, a prestação adapta-se de forma gradual às famílias.
Taxa Euribor a seis meses nos 4,81%
O principal indexante utilizado no crédito à habitação – a taxa de juro Euribor a seis meses - registou ontem um novo máximo, ao atingir os 4,81 por cento, algo que não acontecia desde Dezembro de 2007. A subida de ontem da Euribor foia sétima consecutiva.
Crédito ao consumo sempre a subir
O crédito ao consumo não tem parado de subir, apesar do aumento do preço do dinheiro. Em Fevereiro os empréstimos totalizavam 13,93 mil milhões. Desse total, 569 milhões são considerados como crédito de cobrança duvidosa.
Eduardo Catroga, antigo ministro das finanças, defende que deveser aliviada a carga fiscal das famílias
‘Precisamos de baixar impostos’
Correio da Manhã – Como vê o aumento do crédito malparado nas famílias portuguesas?
Eduardo Catroga – O Estado exerce uma pressão fiscal sobre as famílias e empresas que é preciso aliviar. Não se explica que comparativamente a Espanha os portugueses tenham um esforço fiscal 37 por cento superior, dado o nível de riqueza.
– O que pode ser feito para aliviar essa carga fiscal?
– Já foram tomadas algumas medidas, como o alargamento do crédito bonificado. Mas o Estado pode alargar os prazos de isenção do Impostos Municipal sobre os Imóveis dos casais jovens ou reduzir transitoriamente o Imposto Municipal sobre Transacções. Também podia acelerar-se os reembolsos do IVA e a entrega dos fundos do QREN – Quadro de Referência Estratégico Nacional.
– Defende a descida de impostos?
– Defendo um choque simultâneo da redução da despesa pública e baixa de impostos. Espanha vai baixar impostos; nós precisamos de baixar impostos. E precisamos de congelar a despesa durante alguns anos, o que obrigaria a sermos mais selectivos com a despesa. Sou a favor de plafonds da despesa.
– Que impostos é que, junto com a despesa, deviam descer?
– Devia baixar o IRC, o IRS, o imposto sobre produtos petrolíferos, de forma aliviar a pressão financeira das famílias. O esforço fiscal cair dos 37 para os três por cento.
– Que medidas podem ser tomadas para animar a economia portuguesa?
– O Estado tem de pagar o que deve aos privados. A dívida ronda os dois a três mil milhões de euros e se o Estado emitisse dívida pública era uma injecção de liquidez de pelo menos um por cento da riqueza produzida.
– Que efeitos essa injecção produziria?
– A dívida já existe, é uma questão de assumir a verdade. Ia aumentar o poder negocial do Estado junto dos seus credores, baixando os preços que são pagos pelos contribuintes e aliviando a tesouraria de muitas empresas.
Ajuda de 60 mil milhões
O Banco de Inglaterra anunciou ontem um plano especial de liquidez para os bancos no valor de 60 mil milhões de euros
Perdas no subprime
As perdas mundiais com o subprime, desde o início de 2007, ascendem a 288 mil milhões de dólares, segundo a Bloomberg
Casas a preço de custo
Uma centena de promotores imobiliários espanhóis colocou no mercado duas mil casas novas a preço de custo
DISTRIBUIÇÃO DA COBRANÇA DUVIDOSA POR TIPO DE EMPRÉSTIMO
Habitação - 1,315
Consumo - 569
Outros fins - 505
EVOLUÇÃO DO CRÉDITO MALPARADO NO SECTOR FINANCEIRO (EM MILHÕES DE EUROS)
| MÊS |
2007 |
2008 |
| Janeiro |
2,068 |
- |
| Fevereiro |
2,164 |
- |
| Março |
2,164 |
- |
| Abril |
2,167 |
- |
| Maio |
2,211 |
- |
| Junho |
2,162 |
- |
| Julho |
2,201 |
- |
| Agosto |
2,215 |
- |
| Setembro |
2,185 |
- |
| Outubro |
2,238 |
- |
| Novembro |
2,367 |
- |
| Dezembro |
2,207 |
- |
| Janeiro |
- |
2,277 |
| Fevereiro |
- |
2,390 |
EURIBOR A 6 MESES
21 de Abril de 2008 - 4,817 % (in correio da manha online)