A construção do “cluster” industrial eólico em Viana do Castelo foge à tradição. Depois de ter antecipado em cerca de um ano o arranque da primeira das suas fábricas, o parceiro tecnológico do consórcio Eneop, a Enercon, está a construir uma nova unidade de pás não prevista no contrato com o Estado. Ao projecto, vai juntar-se ainda uma central de dessalinização.
A primeira unidade de pás, em laboração há um ano, funciona junto ao porto da cidade; a segunda, cuja construção começou em Setembro passado e estará pronta dentro de um ano, fica no parque de Lanheses, a cerca de 15 quilómetros de Viana. São, para já, 55 milhões de euros de investimento e mais 500 postos de trabalho a somar ao projecto inicial.
A central dessalinizadora, que vai satisfazer todas as necessidades de água para a laboração da fábrica, é um projecto extracontrato que o consórcio já previa na proposta inicial mas o júri do concurso público não considerou. “Apesar disso, a Enercon entendeu que devia avançar”, declara o presidente da Eneop, Aníbal Fernandes. Está estimada em cinco milhões de euros e, embora não tenha ainda data marcada para arrancar, o projecto é dado como firme.
O gestor assume que a antecipação de prazos joga em benefício da Enercon. Durante um ano, a fábrica de torres de betão forneceu outras empresas do mercado. “Estamos a rentabilizar o investimento para além do que nos foi pedido.” Agora, vai fornecer os parques eólicos do consórcio que co-lidera com a EDP e, a partir de 2010, vai exportar pás, torres e geradores.
A mesma antecipação será aplicada aos parques eólicos. O concurso estabelecia que tinham de entrar todos em funcionamento até ao final de 2013, mas o plano da Eneop é que isso aconteça até ao fim de 2011.
Três fábricas a inaugurar
No dia 19 de Novembro, o consórcio inaugura o segundo grupo de fábricas que constituem o principal núcleo industrial do cluster eólico e que o contrato previa entrarem em funcionamento em Dezembro próximo. São elas as unidades de geradores, de mecatrónica e de torres de betão. Esta última, instalada em Lanheses, está já a funcionar desde Setembro e já equipou um parque eólico com dez turbinas, na serra de Sicó.
Estas unidades juntam-se à primeira unidade de pás que labora desde Setembro de 2007, um ano antes do previsto. Também um mesmo ano de avanço leva a fábrica de construções metálicas da A. Silva & Matos, parceira do consórcio. Apenas uma unidade da CME, ligada ao cluster, mas com instalação na Lousã, ainda não tem o processo concluído.
Aníbal Fernandes sublinha a antecipação da parte fabril de todo o projecto, que prevê a instalação em Viana do Castelo de cinco novas unidades que constituem o principal núcleo do projecto, formado por um cluster de 29 empresas. “Todas as fábricas que eram para estar concluídas no fim de 2008, já estão. Está tudo praticamente feito na parte fabril.”
Quanto aos parques eólicos da Eneop, o primeiro está em construção e mais nove ficarão concluídos até ao final do ano, com uma potência de 170 Megawatt (MW). Em 2009 entrarão em construção mais 15 parques, no total de 450 MW.
Na fábrica de torres, uma das três a serem inauguradas no próximo mês, um turno de 60 pessoas trabalha actualmente na construção dos enormes segmentos cilíndricos que constituem o pilar de betão das turbinas. Cada um dos 15 segmentos que compõem uma torre pesa cerca de 40 toneladas. Esta fábrica vai a caminho de ter dois turnos e quase duplicar o seu quadro de pessoal, faltando para isso as licenças oficiais já pedidas. Em velocidade de cruzeiro fará três torres por semana, podendo ir até às 200 por ano.
A Enercon é a parceira tecnológica do consórcio Eneop, que co-liderou com a EDP, e que venceu o primeiro concurso eólico em Portugal. Pela obtenção de 1200 MW de potência para parques eólicos, cuja construção iniciou recentemente, o consórcio ficou responsável pelo lançamento de uma nova fileira industrial em Portugal. O investimento total previsto é de 1,7 mil milhões de euros, dos quais 161 milhões na parte industrial e o restante na construção de parques eólicos.
Com o alargamento do projecto, os investimentos pelos quais a Enercon é directamente responsável ascendem agora a 137,6 milhões de euros.
O consórcio liderado pela Galp Energia-REpower ganhou o segundo concurso de 500 MW, tendo-lhe sido atribuídas responsabilidades industriais semelhantes.
Do terminal de Sines para o “cluster” eólico de Viana do Castelo
Não é o primeiro grande projecto da vida de Aníbal Fernandes. Entre a construção do terminal de gás natural em Sines e a do cluster industrial eólico em Viana do Castelo, este engenheiro electrotécnico, de 55 anos, marca algumas diferenças.
O terminal de Sines “foi um desafio à capacidade de engenharia portuguesa”, diz. Era um projecto de grande dimensão, numa tecnologia (criogenia) que o país não dominava, mas essencial para armazenar o gás natural. “Foi o maior tanque de gás que se fez em Portugal e a equipa constituída era 90 por cento nacional”. Foi buscar apenas três especialistas estrangeiros em três domínios-chave.
A equipa que fez o desenho da engenharia de base, com base na qual os empreiteiros gerais apresentaram as propostas, fez depois a fiscalização da obra. “Incorporou-se saber e pouparam-se milhões de euros. Com outra vantagem: parte dessa equipa transitou para a parte da operação com o conhecimento que tinha da parte da construção”, o que diz ser relevante quando o terminal se prepara para obras de expansão.
Defensor e praticante do respeito pelos prazos, orçamentos e objectivos - em Sines antecipou prazos e concluiu a obra abaixo do orçamentado -, Aníbal Fernandes sustenta que “essa deve ser a regra e não excepção”. Também a tecnologia eólica é nova no país. Um dos desafios agora é integrar equipas alemãs da Enercon e portuguesas. “Contam-se pelos dedos da mão os alemães que cá têm estado. Não mais de cinco em cada fase.”
O maior desafio está no bom caminho mas ainda vai a meio: “Transformar uma adversidade estrutural do país - a sua fragilidade energética - numa oportunidade.” Para este gestor, a meia-vitória já conquistada foi tirar as energias renováveis da “subalternidade” em que viviam em Portugal e esta, sublinha, é a mudança mais significativa provocada pelo projecto industrial eólico, integrando a cadeia que vai desde a investigação e desenvolvimento até à operação industrial dos equipamentos. “A fileira industrial está a transformar-se numa fileira de saber, que só peca por tardia.”
Poupança máxima
A central de dessalinização culmina uma série de iniciativas de sustentabilidade do projecto, que vão desde a iluminação das fábricas a uma cisterna de água. As fábricas portuguesas da Enercon têm painéis solares térmicos para aquecimento da água, com os quais consegue uma poupança de 40 por cento das necessidades. Acresce uma cisterna para recolha da água da chuva com 1000 metros cúbicos de capacidade para fornecer a Armada, em caso de necessidade, a central de betonagem e para rega e jardinagem.
Também as paredes e telhados das fábricas integram janelas de dimensão superior à habitual e clarabóias de modo a reduzir as necessidades de iluminação. A poupança de consumo eléctrico não foi quantificada, mas a compra de energia eléctrica à rede vai acabar quando entrarem em funcionamento duas turbinas eólicas para teste e consumo, com dois MW cada. Servirão as necessidades do complexo fabril e ainda haverá energia para vender à rede.
Empresa não encontra mão-de-obra disponível no distrito de Viana
As novas fábricas da Enercon, em Viana do Castelo, vão começar a procurar mão-de-obra fora do distrito, nomeadamente Barcelos e Esposende, para ultrapassar as dificuldades que sentem na segunda fase de recrutamento para o cluster industrial eólico.
Entre anúncios dos jornais e listas de inscritos no Instituto de Emprego, a resposta, nesta fase, tem ficado muito aquém do desejado. “É muito baixa”, responde Francisco Laranjeira, director-geral da Enercon portuguesa, que se escusa a avançar números. “Eu nem digo [a taxa de respostas], para não assustar.”
Questionado sobre se o Rendimento Social de Inserção ou o subsídio de desemprego são, neste momento, um factor desincentivador para o mercado de trabalho, e para os seus 7,6 por cento de desempregados, o gestor prefere não responder.
O consórcio vira-se agora para as regiões vizinhas, como a zona do vale do Cávado, perante a escassez de mão-de-obra disponível e os compromissos assumidos com o Estado português.
Apesar de a energia eólica ter uma forte incorporação tecnológica, o conceito industrial desenvolvido pela Enercon implica mão-de-obra mais intensiva no que se refere às operações de rigor, de recorte das fibras de vidro que revestem as pás das torres eólicas e de rebobinagem dos aerogeradores. Do mesmo modo, os trabalhos mais pesados ficam para as máquinas e para os monocarris suspensos do tecto.
Nas fábricas de pás, as mulheres desenrolam a fibra de vidro, cortam-na, esticam-na e passam-na a ferro, diariamente, vezes sem conta. De camada em camada, as asas longilíneas de 40 metros de comprimento são transformadas em pás de rotor. Na unidade de geradores, são os homens que rebobinam quilómetros de fio de cobre no interior dos cilindros com a precisão suficiente para que uma folha de papel passe sempre entre os fios no final do trabalho. A montagem de um aerogerador por uma equipa de quatro pessoas, em dois turnos de oito horas cada, demora em média seis dias úteis.
Não é, por isso, de mão-de-obra indiferenciada que a Enercon anda à procura. O presidente da Eneop, Aníbal Fernandes, defende que na indústria central desta fileira - aerogeradores, pás e torres -, a mão-de-obra é “sempre qualificada”. O trabalhador “tem de saber, pelo menos, interpretar um desenho”, um requisito de literacia que admite poder não se estender ao resto da cadeia de fornecimento.
No caso das fábricas da Enercon, os trabalhadores são pré-seleccionados passando sempre por uma fase de formação, parte da qual é feita na Alemanha para os quadros e cargos intermédios.
O gestor estima que quando a fileira eólica estiver concluída em Portugal dará emprego a 20 mil pessoas, de forma directa e indirecta, confirmando que a energia renovável é uma fonte de emprego superior à da indústria eléctrica tradicional e que a produção descentralizada de energia é mais trabalho-intensiva.
Na Alemanha, por exemplo, a eólica representa 10 por cento da electricidade produzida, empregando cerca de 300 mil pessoas. Os outros 90 por cento dão trabalho a 210 mil pessoas. Em Espanha trabalham 100 mil pessoas neste sector. (in Público)
